quinta-feira, 4 de agosto de 2016

2644 - EPISÓDIO VI: Impasse


        São Francisco é o paraíso Asiático do ocidente, o último reduto da imponente e hegemônica cultura japonesa na Terra. desde que o arquipélago afundou por inteiro cerca de 90 anos atrás. Na Califórnia, manhãs escaldantes como aquela que se abatia sobre a pequena quitinete abafada das colegas de estágio, eram normais.
- Ela tá demorando demais. – Laura andava de um lado para o outro do quarto, até seu dedão esbarrar no tornozelo de Seth, sentado ao chão com as pernas esticadas, e ela voar de encontro ao próprio colchão.
­- Não entendo a sua euforia, essa gente é importante pra você? – Foi o que ele perguntou, vendo a garota estropiada entre a parede e o colchão, segurando o pé de dor.
­- É... São importantes, sim! – Laura respondeu tentando por ordem no alvoroço que se tornara sua longa juba negra após a queda.
- Eu só espero que não sejam mais problemas. – Katie comentou passando da "cozinha" para o quarto em meros cinco passos.
         O quadro holográfico se apresentou para eles, flutuando. Indicando que haviam visitantes para a quitinete esperando no diminuto saguão do antigo prédio. Laura, sentada em seu colchão, esticou o braço e estalou os dedos; chamando a atenção do quadro, que voou até ela se ajustando ao nível de seus olhos. Ela então esticou o polegar para a tela holográfica, permitindo a entrada dos convidados.
- Aí vem ela... Trouxe amigos. – Disse Laura se levantando de um salto. Seth ficara mais tenso, porém não esboçava nada.
         Katie estendeu a mão para o círculo vermelho da porta, que mudou a coloração para verde e deslizou para o lado, abrindo caminho para a figura esguia de Gaya, com seus altivos olhos púrpura, para o desconfiado Grigori e a enorme sombra do Major Stewart, ambos carregavam pesadas malas de passeio em um dos ombros. Laura se adiantou para abraçar com força Gaya, que bambeou um pouco com a intensidade violenta da garota mas, retribuiu o abraço.
- Esse é o Grigori e o outro é o Major Stewart. – Gaya apresentou os parceiros. Grigori ergueu a mão para a moça, mas também recebeu um abraço.
- Eu me lembro dele. Papai falava bem de você. – Laura ressaltou dando alguns passos para trás e se virando para Seth e Katie.
- Seus amigos? – O Major Stewart perguntou, cruzando os braços e fazendo parecer que seus bíceps aumentaram de tamanho.
- Katie. Seth. – Laura respondeu apontando com o polegar para cada um dos dois enquanto se postava entre eles.
- Esse é o... nosso colega que precisa de ajuda, eu suponho. – O Major prosseguiu com cautela ao se dirigir à Seth. Não chama-lo pelo termo pejorativo de Mímico ou cópia seria de grande proveito para manter relações boas.
         Seth nada respondeu, o silêncio começou a esmagar o ambiente. Katie o olhou mordendo os lábios, então tocou seu braço e se colocou entre os visitantes e os amigos.
- Seth, presta atenção. Eles vieram aqui pra te ajudar, trouxeram a sua identidade nova, e vão ajudar a gente a esconder você... – Ela explicava tudo calmamente, como se explicasse para uma criança porquê é necessário ir à escola.
- Mas, por que eu devo me esconder? Só quero que me deixem em paz. – Ele cortou a explicação da amiga, para a surpresa de ambas. Galyantra também se mostrou incomodada e se pôs a dar explicações.
- Antes de mais nada, as identidades e vistos novos não são só pra ele! Vocês violaram o sigilo de um projeto corporativo. Privado. – Ela informou às meninas, que se entreolharam em uma assombrosa pausa, na qual percebiam a verdadeira extensão da confusão em que se meteram.
- Caso não saibam, senhoritas, vandalismo ou espionagem corporativa é passível de morte neste país. – Concluí Stewart, atrás de Gaya. Katie levou as mãos a cabeça e Laura, por sua vez, à boca.
- Relaxa, ninguém lê os termos antes de assinar mesmo. – Grigori arriscou aliviar a tensão.
         A discussão entre as três mulheres prosseguiu no meio da apertada saleta de estar. O Major continuou à porta, verificando o estreito corredor e o hall dos elevadores enquanto inspecionava os mantimentos das malas; ao passo que Grigori se postou atrás de Gaya para ouvir as perguntas das aterrorizadas garotas, Seth estava no portal entre a saleta e o cômodo que servia de quarto. O rapaz ouvia atentamente a conversa dos estranhos com as amigas, ainda um pouco desconfiado.
         Encabulado o bastante para ouvir o som de rotores antigravitacionais de alguma espécie de aeronave se aproximando. Ele ergueu o olhar para a roda de conversa e percebeu Grigori olhando intensamente para a janela além dele no quarto, algo se iluminava sutil e estranhamente por debaixo de seu tapa-olho. Seth inconscientemente começou a flutuar.
- Acabou o papo! – Grigori avisou se arremessando contra Gaya e Laura, levando ambas ao chão.
         Nesse momento, A parede do quarto explodiu atrás de onde Seth deveria estar, microssegundos atrás. Nas últimas ínfimas frações entre segundos, o humanoide se impulsionou no ar e envolveu Katie, que estava exatamente em linha reta com o portal entre a saleta e o quarto e seria atingida em cheio pelos estilhaços e o calor da detonação. O calor dos momentos seguintes era insuportável e o som ensurdecedor varreu do espaço pequeno os gritos das garotas.
         No chão, Gaya se colocou sobre Laura, e Grigori sobre ela. Protegendo a menina de qualquer dano. Seth segurava Katie, que agarrava a jaqueta de polímero amarela e preta do rapaz com força; Ele flutuou com ela se lançando contra a parede oposta da saleta e a soltando atrás de um velho sofá. Se ergueu para olhar o rombo na parede e viu, ao abaixar da poeira, um Planador Sônico de Decolagem Vertical pairava à altura do apartamento.
- Segundo o Protocolo Constitucional 289-03, vigente à resolução da jurisdição corporativa. Vocês estão presos por terrorismo e tráfico de produção ultrassecreta. Permaneçam parados. – Anunciou o piloto do planador de seus pesados propagadores de som.
- Merda, esses caras são ousados! Stewart!!! – Gritou Grigori, do chão para o major Stewart, que adentrou o apartamento novamente com uma escopeta de bombeamento MOSS.308, e começou a descarrega-la no planador. Os pesados cartuchos faziam pesados estragos em sua fuselagem, um por vez.
Tchack-Thack.
Blam.
Tchack-Tchack.
Blam.
         No último dos dez cartuchos que enchiam seu cano, a escopeta pesada do Major perfurou a blindagem à gel do vidro do piloto, danificando seriamente o display holográfico que se projetava nele. Sem visão, a aeronave retrocedeu e liberou a área para os operativos de solo.
- Vocês trouxeram eles aqui! – Seth se precipitou para o Major, que descansava a arma em posição de sentinela. Mesmo sabendo que a força do humanoide seria quatro vezes a própria, Stewart o peitou de volta.
- Põe essa noz de plástico que inventaram pra você e chamaram de cérebro pra funcionar! Por que caralhos a gente entraria aqui primeiro e depois se mataria numa explosão? – Grigori disparou, já enfurecido pela situação. Retirando a jaqueta laranja e revelando o pesado colete de polímero de Khanü e Kevlar em gel sob a camiseta preta. Na parte de trás de seu cinto estava a imponente faca Bowie.
- Vou tirar elas daqui! Ouviu isso loura? – Gaya virou a cabeça, como se falasse com alguém, em sua mente, através de um receptor tecno-sináptico implantado; ouviu a resposta de Aleksandra Volkovena.
- Copiei. Merda, esses caras são bons, to redirecionando vocês pra saída de incêndio. Mas, vão precisar de cobertura! Têm nove assinaturas térmicas subindo pelo elevador principal! – Aleksandra visualizava a imagem do calor de vários corpos através de seu link hackeado, através do acesso roubado que conseguiu das câmeras de segurança do prédio.
- São onze. Dois pelotões e um comandante. – Grigori corrigiu, havia retirado o tapa-olho e fixava o olhar em algum ponto no chão do corredor, o que realmente via era o elevador subindo com um comando tático de mercenários.
- Droga, quase acertei... – Ele ouviu a hacker responder no Com.Link em seu ouvido. Virou-se e começou a ajudar Stewart a descarregar o conteúdo das malas.
­- Eu vou com elas, vou tira-las daqui em segurança. – Determinou Seth.
- A decisão é sua garoto. Se cê acha que aqui tá abafado é melhor se retirar, porque isso aqui vai pegar fogo. – Declarou o Major terminando de trajar seu imponente Exoesqueleto IDUA.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

2644 - EPISÓDIO V: Déjà vu

        Los Angeles de 2189 não dorme. Na sacada de seu pequeno apartamento, Grigori Dreikov limpa sua pistola Sig. Compacta .50; uma arma antiga, porém elegante. Não muito diferente de tantas e tantas outras armas terráqueas. O homem aprendeu muito com as raças extraterrestres, porém existem vícios que não podem ser superados, apenas aperfeiçoados.
         E assim, os projéteis terráqueos de polímero foram substituídos por outros metais mais potentes e alienígenas, como a Diatita Lunar e o Kranü Centauriano. A industria armamentista virou de ponta cabeça e velhos esboços foram reaproveitados em novos conceitos. A necessidade do homem de carregar metal com gatilho e culatra não cessaria por nada. Nem quando descobriram que o conceito de arma de fogo não existia para diversas culturas alienígenas.
         Muitas raças absorveram uma modalidade fantástica e barata. A concentração de magnetismo polarizado com plasma à temperaturas incalculáveis, no que o ser humano primitivo chamaria de "arma de raio laser". Porém o conceito era aplicado à cajados, maças; machados ou martelos. Aos olhos humanos, a contradição e a dificuldade de alcançar o conceito mantinha projetos de armas do tipo à nível militar ultrassecreto.
         Para Grigori, isso era ótimo. Jamais gostou de confiar em projéteis mágicos de gracejos alienígenas. O quadro holográfico do apartamento flutuou até a sacada onde estava sentado, para lhe informar que a digital de um visitante foi reconhecida no portão da frente do prédio. Uma conhecida que não via há meses. Ele se levantou do banco alto da sacada e foi até a porta, pressionando a mão contra um círculo vermelho na altura de onde estaria uma fechadura.
         Com seu toque, o círculo tornou-se verde e a porta deslizou para o lado, para dentro da estrutura da parede; para revelar de seu outro lado...
- Gaya... Descobriu que eu tava vivo, foi? – Ele se afastou da porta com um sorrisinho e virou as costas para ela, de volta à direção da sacada nos fundos da sala de estar, aonde estava sentado.
- Eu tô com um problema. Pode ser grande. – Os olhos púrpura se destacavam como os de um felino, na penumbra do apartamento.
- Ah, é? – Ele desdenhou.
- É. – Ela retrucou.
­- Que foi? Não tá achando seus "cyber-bagulhos"? Aqui não tá. – Ele a provocou, sentando no sofá e apoiando os pés na mesinha de centro da sala de estar.
- Vai se foder! Eu só tô aqui porque é um trampo discreto e... e é de família, meio que... – Ela meneou a cabeça e sentou no sofá.
         Há 2 quilômetros do chão, o apartamento era considerado ainda baixo para os padrões de vida aceitáveis. Haviam vias magnéticas para os carros vários metros acima e ainda muitas a baixo do andar daquela habitação. Os sons dos motores e dos gritos nas galerias e comércio daquele nível da cidade penetravam os aposentos do apartamento. Bem como os diversos letreiros e neons dos flutuantes coletivos, a evolução do transporte público. Vagões únicos com propulsão antigravidade que viajavam nos intervalos de pistas magnéticas, matando o trânsito.
- Pra um cara bem de grana, tá foda aqui. – Galyantra comentou, se afundando no encosto do sofá.
- Você sabe pra onde a grana vai, não finge que não sabe. – Ele comentou, tirando o tapa-olho e permitindo que um flash de luz arroxeada, vinda de seu olho esquerdo, inunda-se momentaneamente a sala de estar. Quando tudo voltou a penumbra, a órbita negra e o círculo roxo que era a íris biônica, focalizaram a jovem mulher.
         A visão do olho aprimorado involuntariamente ofuscava o entendimento do olho direito, humano. Em uma espécie útil de estrabismo; manter o implante sob o tapa-olho era a maneira que Grigori encontrou de "enxergar menos". Podia ver as sinuosas camadas de calor se moverem pelo corpo da moça, bem como os poros de sua pele ao mero comando de suas sinapses. Distinguiu a trilha esfumaçada de perfume dela no ar, que a  seguiu da porta ao sofá. Observou a pistola Walter presa a cocha dela, por debaixo da calça baggy de camurça.
- Eu devo isso à ela. Eu sei que a reação dela não vai ser diferente do resto da família. Mas, eu devo isso à ela. – Grigori comentou, fitando a cidade para além da varanda.
- Você se culpa demais. Tá, escuta... Se me ajudar, eu descolo uma contribuição pros fundos da Illyana. – Gaya se aproximou dele no sofá, transparecendo sinceridade.
- Eu enxergo a movimentação no seu pericárdio, enxergo todo o resto também. Você não tem nem certeza se me contar que tem um problema é a coisa certa, por que tá mentindo pra mim? – Ele fixou fundo os olhos púrpura dela, concentrando-se para reter sua visão em ambos os nervos ópticos e normaliza-la.
         Sabendo que se entregou, se convencendo de que ter abordado o jovem homem daquela maneira era errada; Ela então expôs da melhor forma possível, sua linha de pensamento.
- ­Lembra da filha do Joseph? – Ela perguntou?
- Joseph... Joe Allen? O que aconteceu com ele e a esposa foi uma tragédia. – Ele respondeu.
- Pois é, nem todo mundo morre de um jeito bacana... – Ela tentou prosseguir.
- O quê? fatiados em moléculas em um dispersor sônico? – Ele a interrompeu, Gaya piscou os belos olhos felinos, revirando-os. Grigori sorriu, ao perceber que a deixava irritadiça.
­- A filha do Joe manteve contato comigo nesses últimos anos, tava morando com o tio até ser contratada como estagiária pela TAG Tech. – Foi a vez dela notar que o deixara encabulado, e sorrir quando ele se remexeu no sofá incomodado.
- Não tinha lugar pior, não? – Ele comentou secamente, aproveitando isso a moça explorou a ferida que compartilhava.
­- Ela teve acesso ao mais novo Mímico deles. – Ela informou sem muita euforia.
­- Filho da puta! E todo mundo crente que essa história de humanoide híbrido tinha passado. – Ele aparou a cabeça entre as mãos, apoiando os cotovelos no joelho. Galyantra bocejou, e depois de alguns instantes no silêncio do breu total, amenizado pelas luzes da cidade varando a sacada; ela se pôs a falar.
- Ela disse que ele é um cara legal... – Gaya é interrompida por um grunhido de descrença de Grigori – ... Que não tem noção de quem é ou o que faz.
- E você vai entrar nessa? – ele perguntou avaliando-a.
- Porra, Greggie... É a filha do Joseph. Se aquele cara não tivesse aparecido provavelmente seríamos eu e você naquele dispersor sônico! – Gaya se sobressaltou, erguendo-se do sofá em um salto e postando-se à frente dele.
         Grigori virou a cabeça e fitou novamente a cidade além da varanda, haviam pessoas naquela vida com quem ele se identificava e devia para. Colegas como o Major Stewart, Aleksandra e Gaya. Outrora Joseph Allen e sua esposa Maddie faziam parte desse grupo, o ajudaram a encontrar direção quando lhe faltava, assim como Galyantra o fez. Talvez ela tivesse razão, talvez devesse isso à Laura Allen.
- Vou ligar pro Stewart, e amanhã de manhã te encontro lá... Se quiser tem colchão sobrando aqui. – Ele acrescentou levantando-se do sofá. Ela dirigia-se à porta da frente.
­- Não dessa vez. – Ela sorriu, seus olhos hipnotizantes desaparecendo ao fechar da porta deslizante do apartamento. 

2644 - EPISÓDIO IV: B.A.B.E.L.


         Com o alvorecer da Segunda Renascença Humana, na virada do século XXI. O auxílio tecnológico provido pelas raças alienígenas que faziam da Terra um posto de troca até Alfa Centauri, permitiram o aprimoramento das interfaces de comunicação para um sistema de conexão neural. No qual a tradução dos dados era feita de forma didática e "física"; tornou-se possível tocar com as próprias mãos toneladas de gigabytes em arquivos, através de representações gráficas muito precisas.
         Ao final da fase inicial do projeto. Uma empresa sueca patenteou os direitos sobre a tecnologia ensinada pelos Annunnaki, conhecida por ser uma das raças mais severas e inteligentes no sistema solar, bem como verdadeiros nômades siderais. Com a dita patente em mãos, a Lumerian Enterprises despontou no mercado mundial com a B.A.B.E.L.
         Tornando o sistema holográfico de interfaces de comunicação, algo secundário e as arcaicas Touch Screens, obsoletas. O projeto B.A.B.E.L transferia o bruto das sinapses e da atividade mental, bem como escaneava a massa cinzenta do usuário para renderizar sua consciência no cyber-espaço. Tal tecnologia, obviamente, teve sua inauguração na área militar e lá foi mantida em segredo até a chegada da década de 2160. Uma vez que os servidores e aprimoramentos do maquinário de transferência do modelo MK.1 já eram extremamente obsoletos.
         Para acessar tais servidores; para adentrar à Biometric Artifitial Brain for Enhanced Logic; ou simplesmente B.A.B.E.L. Era necessário um Deck de Absorção. Que era constituído pelo emulador de consciência, os diversos eletrodos que saiam de seu console, e duas agulhas principais a serem introduzidas na medula e na base do trapézio.
         Era com duas dessas agulhas para inserção virtual que Katie auxiliava Laura a se plugar na rede biométrica singular de informação. Deitada em uma cadeira reclinável, uma verdadeira peça de antiquários; um acento que remontava aos antigos consultórios de dentistas do século XXI.
- Cuidado com essa merda. Pelo amor... *urhg* – Laura alertava a amiga, que sem cerimônia perfurou dolorosamente sua cervical com o agulhão do Deck de Absorção, por um buraco na parte de trás da cadeira.
         Observando, sentado em um  banquinho no canto do quarto, apinhado de pôsteres de bandas Techno e cases e mais cases de livros digitais de faculdade; estava a cobaia PS-127. Levantando-se, caminhou até o acento em que Laura se deitara, e gentilmente pediu a segunda agulha à ser inserida no trapézio da moça.
- Eu gostaria de tentar, li vários dos seus livros de Engenharia Neurossintética. – Ele informou, pedindo a agulha que Katie segurava com a mão estendida.
         A réplica de Katie foi entregar a ele a agulha de conexão, após alguns segundos ponderando se realmente um cérebro artificial conseguia consumir tanta informação num espaço tão mínimo de tempo. Pelo jeito, conseguia. A precisão com a qual a agulha foi inserida no trapézio de Laura foi tamanha, que imediatamente o estado característico de catatonia, gerado pela máquina, a atingiu.
        Inicialmente, a onda eletrostática inundou a medula de Laura. A descarga acelerou sua atividade cerebral ao máximo, era possível perceber pelo arregalar de seus olhos, e a respiração rápida e descontrolada. Até que os níveis de consciência, sinalizados no servidor holográfico ao lado do console da máquina, despencaram abruptamente. Os olhos da garota então se reviraram nas órbitas, enquanto suas pálpebras se fechavam, e ela não mais estava em um quarto, numa quitinete em São Francisco.
         A consciência dela vagou delirante pelo ciberespaço por alguns segundos, até que a necessidade humana de noção corpórea a atingiu. E lá estava Laura, inteiramente projetada em meio à infinitas linhas de código holográficos.
- Eu avisei para não me procurar, Laura. Agora sai da minha matriz de operação antes que apareçam clientes. – Uma voz feminina se projetou no ciberespaço, no que a consciência emulada entendia como som; na verdade eram linhas de código sendo interpretadas no córtex e reenviadas para o usuário.
- Mas eu vou ser a sua cliente hoje, Gaya. – A garota respondeu à "voz" depois de alguns segundos hesitando.
         A "voz" deixou escapar uma risada, ao passo que pixels incandescentes formavam o corpo de outra jovem mulher com um certo flickering. A miragem da nova ocupante da sala tremeluzia a medida que ela caminhava até a visitante.
- Prometi para o seu tio que não meteria você nos negócios, e isso inclui a minha área. – Galyantra Al'Feyt caminhou até Laura graciosamente; seus olhos, sutilmente maiores, cintilavam o púrpura hipnotizante de sua íris. Projetava-se ali tal qual era sua forma no mundo real, seu corpo parou de tremeluzir e adotou o tom de pele ligeiramente avermelhado, oriundo da Lua. A emulação era perfeita, tamanho era seu controle mental na B.A.B.E.L.
- Por favor, a gente... Eu, só preciso de alguns documentos falsos. – Laura ensaiou, seu corpo virtual falhava conforme sua euforia interferia em seu controle mental no ciberespaço.
- O quê que você fez, hein? Da última vez que ouvi de você foi quando entrou pra'quela empresa geneticista nojenta. – Galyantra rodeava o avatar de Laura sem tirar os diamantes púrpuras que eram seus olhos, da forma digital da amiga mais nova; a encarava em um tom de avaliação, franzindo a testa.
         Mesmo na B.A.B.E.L, Laura pôde sentir o magnetismo do olhar da moça, analisando-a. A mente disparou em soluções e seu corpo virtual dispersou em um flickering absurdo. Quando voltou a normalidade de uma estrutura corpórea normal, ela inqueriu.
- Já ouviu falar de um Mímico? – A menina encarou os olhos púrpuras, que já extraordinariamente projetados, se arregalaram mais ainda.
- O quê você fez, Laura? Me diz que você mexeu num vespeiro e não nos arquivos da TAG! – Espantada, Galyantra se aproximou abrupta e intimidadoramente da garota, encostando em seu avatar. No mundo real, o corpo de Laura se contorceu em um espasmo violento, assustando a amiga e o rapaz que a aguardavam.
- Foi muito rápido! Mas, ele tá com a gente agora... Ele é uma boa pessoa, ou coisa... ou seja lá o que ele é! Mas, ele não tem culpa! Ele não entende! Por favor, Gaya! São só alguns documentos de identidade, o nome dele é... – Laura proferia freneticamente, a medida que as linhas de código ao seu redor se quebravam e ruíam, o chão descascava em enormes equações flutuantes, cintilando em verde. Um enorme abismo se abriu entre as linhas de código, a meros centímetros dos calcanhares dela.
- Presta atenção, garota! Fica aonde você tá e não abre a porta pra ninguém. Eu tô indo pra aí! – Gaya disparou, antes de empurrar a jovem para o abismo do ciberespaço.
- O nome dele é... PS127...Cento e vinte... sete...sete...sete...sete... – Enquanto despencava de volta ao mundo sólido da realidade, a consciência dela travara nas últimas "palavras" que proferiu para os olhos alienígenas de Galyantra.
         Na cadeira, conectada ao deck de inserção, Laura convulsionou. As veias em seu pescoço saltavam brutalmente enquanto seus olhos reviravam nas órbitas. Relaxar é um pré-requisito importante para entrada e reentrada em ambos os mundos, coisa que a jovem não conseguira fazer.
- Merda! rápido, pega uma cápsula de Teto-Preto! vai estabilizar o fluxo de adrenalina, vou pegar um palito... – Katie apontava para um pequeno case com dúzias de pílulas transparentes, que continham um gaseificado laranja fluorescente.
 - Sem tempo. – O jovem respondeu, abrindo a boca de Laura com o máximo de gentileza possível. Ela mordeu violentamente os dedos dele, que tentava colocar a cápsula de baixo de sua língua. Porém, ele não esboçou qualquer reação à violenta mordida.
         Após momentos de excruciante apreensão. As convulsões se reduziram a espasmos e o leitor holográfico que flutuava pelo quarto em um retângulo azul-elétrico, indicou a normalização das atividades cerebrais e fisiológicas de Laura. Ao passo que ambos se inclinaram para ver os olhos da garota se abrirem, puderam ouvir suas primeiras e embaraçadas palavras.
- Seth... 'Bri... Brigada... Obrigada... – Balbuciou Laura, e se jogou da cadeira, abraçando o rapaz.
- Soa bem. Seth... gostei. – Katie se largou no colchão de gel, com um sorriso travesso.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

2644 - EPISÓDIO III: Proveta

        Poucas coisas no final do século XXII eram de tanta tradição quanto o centenário prédio da TAG-Tech no Vale do Silício. Após os primeiros contatos com as civilizações avançadas de Alfa Centauri e de Kraxshanä, no quadrante gama da Via Láctea; a ideia terráquea de tecnologia foi completamente alterada, bem como a visão do ser extraterrestre.
         Isso porque a clássica visão criada há mais de 200 anos, nos inocentes meados do século XX; reproduziam à comunidade oriunda de outros corpos celestes como seres extremamente conectados com tecnologia de ponta, e intelecto superior. Não estavam em tudo errados, a iniciativa de exploração interplanetária de várias raças era avançada, mas poucas a exerciam tão bem quanto a Terra.
         Diversas culturas alienígenas, como as tribos em Titã; atribuíam seus estranhos conhecimentos do campo quântico e físico à magia de seus deuses. De fato, outras culturas com diferentes sistemas fisiológicos fantásticos, como anulação de gravidade pessoal, resistência molecular ou telepatia física; começaram a despontar para os recém iluminados seres humanos, a ideia de seres maiores no Universo.
         Na Terra, a típica controvérsia conspiratória humana tornava um impasse a crença em "deuses espaciais". A verdade que corria nos segmentos mais sigilosos e conectados aos guetos extraterrestres tanto na Terra quanto na Lua, era de que essas divindades eram os primeiros seres vivos à habitar o Universo. Formas de vida tão poderosas que moldaram o próprio campo quântico universal, que para a cultura humana, traduzia-se em uma única palavra ancestral: Magia.
         Durante a confecção da raça dos homens, culturas como os Yrdruianos e os Moonh'Waaks lunares fizeram diversas abordagens à tribos terrestres. Os antigos Vikings deviam sua cultura aos H'as Kraad, e criaram seus deuses asgardianos. Os mesopotâmios cultuavam os Annunnaki, uma raça de humanoides de longas tranças e barbas de quase três metros de altura. Os Egípcios faziam oferenda aos P'Hàrös, e tornaram seus líderes os primeiros faraós. Já os índigenas americanos entraram em contato com a civilização do lado escuro da Lua. Os índios Mohawks americanos eram de fato híbridos de seres humanos com os humanoides mais semelhantes ao homo Sapiens que já foram encontrados.
         Os Moonh'Waaks da Lua tinham a pele avermelhada próximo ao pardo, olhos um pouco maiores do que seus parentes humanos, geralmente de íris esmeralda ou púrpura. Partilhavam do mesmo sistema genital/reprodutivo e excretor; além de serem um povo pouco versado em tecnologia, deviado a escassez de material lunar. Com exceção das naves planadoras criadas com o estranho e volátil metal de Diatita, encontrado abaixo do solo lunar. Moravam em galerias subterrâneas e eram as raras exceções de vida extraterrena que não sofria com a atmosfera terrestre, quando visitavam o planeta.
         Escondidos da humanidade por muitas e muitas eras, outras civilizações observaram e esperaram o crescimento da mentalidade humana, até serem descobertos pela população mundial quando o sigilo dos governos mundiais, que estudavam raças alienígenas secretamente, foi quebrado durante o Terceiro Tratado de Versalhes, em 2070.
         Desde então, a tecnologia humana evoluiu graças ao campo quântico, e à "magia" alienígena que envolve a matéria viva e molecular. Mas, o futuro se desenrolou como o homem jamais imaginou; veículos não voaram aos céus, planaram no solo graças à manipulação gravitacional ensinada pelos Annunnaki. Clonagem e manipulação meteorológica tornou-se possível pelos H'as Kraadianos e a viagem espacial definitiva veio por meio dos Krishina, os únicos extraterrestres fielmente interpretados pela humanidade, através da cultura indiana.
         Mas o ser humano sempre será o ser humano. As colônias de outras raças acabavam sendo segregadas ou exploradas. E como irmãos mais velhos, nossos amigos de outras estrelas preferiram colonizar outras partes do sistema solar, quando perceberam que as crianças terráqueas ainda não sabiam brincar. A tecnologia para explorar e viajar pelo vácuo, porém, nos foi muito bem ensinada; visto que já a dominávamos em parte.
         Na Terra de 2182, os humanos eram asiáticos, negros, caucasianos ou híbridos lunares. Visto que outras raças alienígenas não possuíam nosso sistema de reprodução incomum de dois aparelhos genitores distintos, até mesmo a ideia de gravidez enojava certas culturas como os Yrdruianos; Humanoides de corpo fino e esverdeado, com quase três metros de altura, possuíam dois polegares opositores em cada uma das mãos nos quatro braços; e um crânio alongado, sendo ovíparos.
         Em 2168, no auge da Terceira Guerra Fria, entre separatistas lunares e Russos. O projeto Neo-Sputnik lançou o primeiro Neo-Androide terrestre na Lua, feito de carne e osso com DNA de outras raças em uma proveta tecnológica, o casal de meta-humanos, Yuri e Layka, arrasaram a rebelião Lunar. Um ano após a missão, o metabolismo acelerado de ambos deteriorou seus sistemas nervosos e as duas cobaias simplesmente explodiram em pleno campo de teste.
         Nos últimos 14 anos, 126 tentativas de recriar o processo perfeito falharam miseravelmente com os mais diversos métodos de mixagem de espécimes. Em seu tubo de ectoplasma, na TAG-Tech, PS-127 é a mais nova tentativa. E ele acaba de escapar.
- O quê você fez, Katie?! – Perguntou a primeira jovem, uma garota magricela de longos cabelos escuros, que se ajoelhou ao lado do forte rapaz que acabara de se estatelar no chão na frente do Tubo de Ectoplasma, no qual estava enclausurado.
- Eu soltei ele! Anda, Laura! Vamos tirar o pobrezinho daqui! – Respondeu a outra se afastando do console de manutenção do Tubo e se adiantando para levantar o corpo inerte do experimento.
- *Iiirk* é grudento! – Laura reclamou ao apoiar PS- 127 nos ombros e sentir o ectoplasma manchar seu jaleco de estagiária da TAG-Tech.
­         As duas carregaram o desfalcado rapaz pelos corredores apagados da empresa, desviando dos drones de segurança. Bolas voadoras com sensores e Tasers flutuando à 2 metros do chão.
­­- O quê... O que vocês... Estão fazendo? – As voz do experimento saia com dificuldade de sua boca exaurida.
- Cala a boca e anda! – Os cabelos castanhos de Katie desprenderam do coque e agora batiam na cara do rapaz conforme ela movimentava as pernas, carregando-o.
         Um dos Vigias-Drones identificou o trio, e lançando uma ofuscante luz vermelha sobre eles, descarregou eletricidade em alta voltagem. Os cérebros humanos das duas fêmeas mal puderam interpretar o ocorrido. Quando o rapaz saiu do chão, anulando a gravidade em seu corpo e voou em direção ao Drone, recebendo toda a descarga elétrica em proximidade mortal, no peito. Com as mãos vazias, abriu a bola metálica em duas metades; pousando suavemente no chão.
 - Vocês estavam em perigo... – A afirmação dele acompanhou a expressão de assombro no rosto de ambas.
- Só... Vem com a gente, beleza? – Katie replicou pegando PS-127 pelo pulso e estacando violentamente quando ele não se moveu.
         Parado por alguns segundos, pareceu refletir, usando sozinho seu cérebro em toda sua plenitude. Sem drogas, nem sugestivos eletrônicos.
- Vão na frente, eu sigo. – Foi tudo o que ele disse, até atravessarem os portões da TAG-Tech, fugindo pela noite abafada da Califórnia.

sábado, 16 de julho de 2016

2644 - EPISÓDIO II: Um Jogo de Cavalheiros





        Não existe beleza mais mórbida do que a Baixa Londres. O Smog sufocante dividia espaço com as dezenas de galerias de lojas e restaurantes orientais, pelas ruas estreitas ocupadas pelas zonas de descarga de contrabando e lixo das grandes empresas e subsidiarias, cujos prédios ultrapassavam a faixa dos 9 quilômetros de altura. Havia sempre uma tensão estranha no ar do White Joe's Alley, e não eram as imensas colunas de tubos e fiações que viajavam acima das ruas da Baixa Londres.
         Naquela manhã tipicamente inglesa, o gosto da garoa na boca dos forasteiros era metálico, como sempre. A jovem loira e seu acompanhante de Tapa-Olho caminhavam pelo meio da rua fétida, desviando dos carrinhos de lula frita no palito e dos ambulantes que ofereciam implantes genitais. Nas galerias pelas quais passavam, o mais notável; além do fato de certos mercadores de armas não passarem dos 14 anos de idade, era o nível de paranoia de certos transeuntes.
         diversas lojas possuíam antecâmaras blindadas nos fundos, aonde as compras e vendas eram conduzidas no mais alto sigilo, nenhum produto jamais era tabelado, no White Joe's Alley, só se saia vitorioso ou vivo com uma ótima lábia.
 - Fica do lado de fora. Se eu não voltar em vinte minutos, volta pra casa da sua avó, entendeu? – Dizia um rapaz alto e albino, com uma tribal no lado direito do rosto e uma antiga prótese de braço vermelha enferrujada, com apenas dois dedos e um polegar retangular; à uma garota ruiva encardida e com roupas de seda Yrdruriana esfarrapadas que simulavam couro liso.
         De fato, o braço robótico do rapaz albino segurava precariamente uma pequena pistola Sig. 45 que entregou à ela, tremendo não pelo frio, a jovem devia ter entre seus 15 à 16 anos; a barriga protuberante indicava uma gravidez precoce. Ela nada respondeu ao segurar a arma com as mãos em concha, se encolhendo de medo.
- Eu te amo, Bobby! ­– Ela gritou para o rapaz com um acento Irlandês carregado, enquanto ele se adiantava para o interior de uma galeria cuja porta estava cercada de Bósnios mal encarados.
         Grigori observou a cena franzido a testa; O ambiente banal em que se encontravam era o que os Neo Mixistas malucos em Cleveland adoravam chamar de "Sobrevivência do mais forte" enquanto se desmembravam por diversão, e se remontavam com os mais diversos aparatos cibernéticos. 
- Ambiente encantador pra uma cyber-rata como você chafurdar, não? – Ele disparou à sócia, que caminhava um passo a sua frente.
- As vezes é necessário se sujar de terra pra garimpar a esmeralda. – Aleksandra Volkovena lhe respondeu de pronto. Em sua orelha esquerda estava o Potencializador Neural que fazia conexão com seus óculos escuros, por onde a moça podia acessar o cyber espaço usando apenas o córtex e a retina.
- Se você diz... – O franco atirador respondeu, enterrando ainda mais o antigo boné de pano e aba curvada na cabeça, se sentia confortável com vestuário retrô.
         Dobraram a esquina e atravessaram a rua um pouco antes da chuva torrencial começar. Já dentro da galeria chinesa de luzes quentes e cartazes agressivos, com informes explícitos de prostituição e cyber-drogas; a dupla se dirigiu à uma senhora chinesa sentada em um banco de couro vermelho com propulsão baixa, flutuando à meio metro do chão.
Bem vindos, bem vindos... Noite perfeita para o casal... cama com plugs? Os potencializadores de orgasmo acabaram de chegar... – Riu-se a velha em seu acento flutuante, o rosto enrugado e redondo, a boca banguela.
- Que tipo de nuvem a senhora prefere? – Disparou Aleksandra, ignorando a oferta anterior.
- O tipo que traz chuva ao arrozal, e você? – Rebateu a velha, em um tom soturno.
- Do tipo que não esconde o Sol. – Respondeu a loira de pronto.
         O rosto, outrora travesso e rechonchudo se transformou em uma expressão intransponível, a boca banguela virou uma linha reta e os olhinhos desapareceram por entre as grossas sobrancelhas, por fim, a mulher pediu para que a seguissem para dentro de seu estabelecimento. O recinto fedia a mofo e bateria antiga, haviam embaralhadores de sinal, próteses de pernas e diversos utensílios de teor sexual.
- Para os fundos. Negociar...  – A vozinha irritadiça anunciou, sua dona flutuando apressada no banquinho vermelho.
         Quando adentraram o pequeno aposento circular, com uma mesa de centro e um sofá em arco. Perceberam que a idosa não os acompanhou, em vez disso, um homem chinês de meia idade à frente deles fez sinal para se sentarem no estofado.
- Vocês são aqueles a quem devo agradecer por isso? – Perguntou o homem em um sotaque fortíssimo, deslizando pela superfície da mesa seu device atualizador de notícias. A manchete holográfica projetada no ar carregava a manchete: "TERROR NO NEW NAKATOMI - PÂNICO DE ALTA CLASSE!"
- Tanto somos, que lhe trouxemos este humilde presente... conforme o combinado. – Grigori retirou de sua mochila um case retangular do tamanho de uma mão aberta. Uma medida adequada já que preservada dentro dele estava a mão decepada de Albert Naichingeru, em temperatura negativa.
         O chinês suspirou em triunfo, quando Grigori deslizou o case pela superfície da mesa até seu novo proprietário. Ele tomou o invólucro em mãos e o ergueu acima da vista, maravilhado, era a hora do pagamento.
- Conforme o combinado, o sobrenome que nos foi repassado foi deletado do banco de dados da Naichingeru CORP. Agora... O resto do investimento. – Pediu Aleksandra num tom autoritário.
- Pois sim... Eu acho muito justo dar-lhes a soma de 45mil... – Respondeu o homem em tom vagaroso, sem tirar os olhos de seu prêmio.
- Zhè Bùshì hèbìng!  – A loira gritou em chinês: "Esse não foi o combinado!" ao passo que Grigori cruzou os braços, cautelosamente tocando com os dedos o cabo da Tokarev.50 em seu coldre axilar, escondido sob sua jaqueta laranja.
- Você devia ter mais respeito na casa de um... – O homem calou-se quando viu pelo seu device atualizador de notícias que houvera uma invasão em seu sistema bancário, e que 60mil em créditos internacionais lhe foram extraídos.
- Foi um prazer negociar com você. – Anunciou Grigori, ajudando Aleksandra a se levantar, a moça de repente pareceu tonta e desorientada.
         Passaram apressados pela velha no banquinho flutuante, e saíram para a rua. Grigori passou o braço de Aleksandra pelos ombros e a auxiliou na caminhada.
- Preciso treinar mais duro. Esse potencializador quase me tirou do ar... – Ela comentou com a voz grogue.
- E a transferência? Conseguiu? – O atirador a indagou em tom preocupado.
- Consegui, mas quase deixei meu cérebro pra trás. – A hacker o olhou parecendo ofendida, ao ser eu questionada sobre suas capacidades.
         Quando dobraram a esquina no caminho de volta, foram surpreendidos por dois orientais vestindo couraças de proteção urbana, coletes pesados que cobriam os ombros e desciam como saiotes até as cochas. O olho esquerdo de Grigori tremelicou em um espasmo nada natural por baixo de seu Tapa-Olho, e o único ato racional do atirador foi arremessar a parceira que se apoiava nele para o meio fio, em um potente empurrão.
         O primeiro oriental puxou uma faca e estocou para frente, o atirador se esquivou pulando para trás. O segundo tentou investir com uma katana, mas era tarde demais. o corte vertical errou o alvo quando Grigori rolou para trás e agachado sacou a Tokarev .50 que explodiu no ar um balaço, projetando titânio compactado na testa do homem segurando a katana.
         Massa encefálica espirrou para todos os lados e pessoas gritaram vaias, o outro atacante se adiantou com a faca e pulou sobre o rapaz. Abrindo um corte em sua jaqueta e rasgando seu ombro, o atirador cruzou com um soco o rosto do oriental, e os dois se apartaram. Quando se levantou, o asiático recebeu uma lata de alumínio vazia na têmpora, arremessada por Aleksandra; que se recobrara do esforço mental.
         Diante desse vacilo, Grigori recuperou a faca do chão e levou o adversário novamente ao solo se atirando contra a cintura dele e derrubando-o, cabeceou o nariz do homem e cravou a faca em seu pescoço.
- Eu odeio esse lugar... – cuspiu no chão antes de se erguer do cadáver.
- Vamos logo pro Hover... – Sugeriu Aleksandra, ofegando, com as mão no joelho.
­- Boa ideia. – Concordou o atirador, caminhando com a parceira. Vislumbrou a jovem ruiva encardida, chorando sentada na calçada em frente a galeria; da qual o rapaz albino não voltaria.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

2644 - Prelúdio


  O pesadelo começa sempre assim: O som ensurdecedor da explosão. Escuridão. Passos apressados por entre os escombros da galeria. Escuridão. A sensação de ter a cabeça aberta por um serra elétrica e o cérebro arrancado por uma concha de sorvete ao tocar o rosto gelado dela. Escuridão. O ar preso no peito, bloqueado pela torrente de angústia que impede que o cheiro de carne queimada suba pelas vias aéreas. Escuridão.
         O som dos paramédicos e do desfibrilador da unidade androide de primeiros socorros. Escuridão. A voz eletrônica pedindo para que se afastem em um tom monótono e perturbador. Escuridão. Illyana está morta. Escuridão. O monitor cardíaco anuncia uma sobrevida ao cadáver multilado de um anjo...beep...beep...beep...O alívio suprime o terror por alguns instantes, até que traga consigo a noção de que não importa se o coração ou o cérebro não foram desintegrados pelo hidrogênio, Illyana continua morta.
         A menos que se faça algo a respeito...
- War Horse para Foxtrot Sierra... Anda logo, Dreikov! – A voz grave e autoritária do Major chamou Grigori Dreikov de volta ao mundo dos despertos.
- Roger... – O Franco-atirador respondeu pelo Com.Link, afastando as últimas 72 horas de vigilância da vista cansada e dos ombros enrijecidos. Ajustou o tapa olho na vista direita enquanto vislumbrava seu alvo: A cobertura do New Nakatomi Plaza, em Los Angeles. Lar do magnata Albert Naichingeru, quem recebia na noite desta fria sexta-feira, amigos, familiares e rivais para seu quinquagésimo aniversário.
         Deitado no telhado, dormitou por alguns instantes sabendo que o ato teria lhe rendido severíssimas penalidades em seu antigo pelotão Spetsnaz. Mas aquilo foi à uma vida inteira atrás, além do que ele não envergonharia tanto assim a memória de outros atiradores, afinal ele era Tchecoslovaco e não um filho da Mãe Rússia. Seu dedo se movimentou no gatilho da M250, ele podia sentir a tensão no pesado rifle quase que lhe implorando para cuspir no ar um projétil de .408mm da SpaceGate Tech à velocidade Mach 3.
-War Horse, o aniversariante chegou... esperando para cortar o bolo. – Ele declarou para o Com.Link em seu ouvido direito, enquanto se afastava da mira e vasculhava a caixa de munição preparada ao seu lado, encontrou então a peça final para um trabalho bem executado, carregou o equipamento de volta à sua posição enquanto ouvia de seus sócios pela frequência no ouvido.
- Viking Squirrel, Aqui é War Horse. Entrada confirmada? – Novamente o Major chamava a atenção de seus colegas de serviço.
- Claro, claro... Eu tô dentro, Stewart. – Uma voz feminina preencheu a frequência com uma tom cansado, quiçá desinteressado.
- Copiou. Foxtrot Sierra... Assim que o discurso terminar, ele é todo seu! A transferência de dados está praticamente terminada. – Através de seu Com.Link, dentro da sala de servidores do suntuoso New Nakatomi, o homem de quase dois metros de altura limpava o cabo de sua faca Bowie no avental do técnico que vigiava o recinto, agora sangrando compulsivamente no chão, através do corte em sua jugular.
         Ajeitou o terno e se dirigiu para a saída, lacrando a porta com o crachá roubado do defunto, trancando a sala. Dirigiu-se ao átrio do enorme apartamento de Naichingeru, que discursava para seus convidados ao centro do salão, em um palco de marfim chinês estilizado em arquitetura greco-romana. Se aproximou de uma sacada lateral, afasta do centro do salão e apoio-se no parapeito para apreciar a vista da cidade, à 5 quilômetros de altura.
- Dados sintetizados com sucesso. Agora eu só preciso desestruturar o original e deixar o traço falso para os cybercops. ­– Informou a Net Runner pelo comunicador, seus dedos dançando pelos dois teclados que usava em uma velocidade incrível.
- Vamos acabar com isso... – Anunciou o major arremessando da sacada o cartão de segurança do técnico morto. Se dirigiu até o banheiro, um amplo aposento de piso de fibra azul neon, ainda nos fundos do salão. Lá encontrou um carregador de lixo automatizado, flutuando a alguns centímetros do chão, abriu a caçamba do androide de limpeza, e encontrou três enormes sacas de lixo. Vestiu seu conteúdo.
         No terraço gelado de uma empresa de seguros, duas quadras à leste da cobertura do New Nakatomi; Grigori Dreikov observava o salão de Naichingeru de uma posição privilegiada. O terraço mais elevado da seguradora lhe permitia uma visão perfeita da nuca do anfitrião. Desembrulhou então a peça final para a perfeição de seu papel no show desta noite.
- Grigori, o Major está preparado para a Fase 2. – Anunciou a Net Runner.
         O atirador nada respondeu, apenas desembrulhou o pirulito que pegou na mochila de munições. Pôde sentir o gosto do doce arcaico antes mesmo de degusta-lo, saboreando o açúcar no palito, retirou o tapa olho e piscou algumas vezes o olho cibernético. O globo ocular negro faiscou em púrpura até a íris se acender em um círculo vazado, roxo neon.  
         As luzes quentes e aconchegantes da cobertura se apagaram, deixando a cena para os neons escarlates da iluminação de emergência. Do fundo do salão irrompeu em um exoesqueleto de combate, o Major Stewart. Gritos das primeiras damas das altas corporações presentes se confundiam com os estampidos das P90, sacados pelos seguranças de Naichingeru. Porém, os projéteis que atingiam a fuselagem azul marinho do Exoesqueleto IDUA X-64, mal faziam cócegas aos potentes processadores hidráulicos que moviam o traje.
         Um segurança se adiantou pelo flanco esquerdo do colosso biônico, enquanto este caminhava vagarosamente pelo salão, armado apenas com uma Submetralhadora HK. dando pequenas rajadas, afim de evitar baixas civis. O homem ergueu um rifle peculiar, de cano achatado e abertura laminada por uma película fluorescente, antes que pudesse disparar qualquer que fosse o projétil da arma, desmontou no chão, o suntuoso vitral atrás dele estilhaçando ao mesmo tempo; passaram-se longos dez segundos até o resto do corpo de defesa da cobertura entender o que ocorrera.
- Rifle de Pulso Eletromagnético, abatido. – Confirmou Dreikov pelo comunicador, retraindo o ferrolho da M250 e engatilhando o próximo cartucho robusto.
         O major não teve tempo de agradecer, um agente de Naichingeru havia despontado com um lança mísseis soviético M-18 do mezanino à sua esquerda. Apelidado de "Mukha" ou mosca, a munição aprimorada do antigo lança mísseis penetraria a carapaça do X-64.
- Dreik... – Stewart não terminou a frase; O sujeito no mezanino pareceu ter sido atingido por um trem de carga invisível, sendo atirado para trás e acidentalmente pressionando o gatilho da "Mukha". A explosão no espaço confinado foi ensurdecedora e destruiu parte do teto e do mezanino.
- Abatido. – Ouviu Dreikov dizer pelo Com.Link, o major então rumou até o palanque de marfim, onde Albert Naichingeru observava tudo com uma expressão de raiva.
         Por medo de atingirem seu patrão, os seguranças apenas apontaram as armas para a imponente armadura no palco. Os dois se encararam, até que o anfitrião tentou algo imprudente, e com uma adaga de Diatita tentou perfurar o capacete do intruso com um movimento ágil. Porém, o major se adiantou ao ataque.
         Agarrando a mão de Naichingero, torceu-a, tomou-lhe a faca e rapidamente a decepou como se a cartilagem fosse de seda, graças ao raro metal alienígena da lâmina. Com o membro decepado do magnata em mãos, o major Stewart se adiantou para o vitral estilhaçado por um dos projéteis de Dreikov e saltou para sua fuga, por entre os edifícios mais baixos de Los Angeles.
- Prêmio "Em mãos", Aleksandra. –  Disse Dreikov à hacker pelo comunicador.
- Você é um escroto! – Ela respondeu rindo.